domingo, 23 de janeiro de 2011

Lisboa

Dia 2 - Descolei três lugares onda achava que poderia achar o que precisava, fisgando informações do atendente do albergue, da internet e da Vert. Peguei minhas coisas e saí para a rua. Encontrei algumas lojas com apenas roupas de surf e etc, perguntei por umas informações de onde poderia achar equipamento de bodyboard e a unanimidade foi de que teria que ir para as praias para achar algo do gênero. Decidi então tentar a chance em Carcavelos - praia famosíssima pelo ocos tubos em areia compactada e água rasa.

Peguei um dos Comboios Suburbanos, trem este que vai de Lisboa até Cascais, passando por vários praias, entre elas Estoril e Carcavelos. Estava um dia ensolarado e fui com tempo de sobra, tendo em vista que saí bem cedinho de casa, já no ritmo de surf de acordar no raiar do dia e dormir bem cedo. No que tange minha missão de achar os acessórios que precisava a viagem foi um pouco frustante, pois é um lugar que clama por um carro para a locomoção e eu não tinha nenhum desses no bolso. Entretanto, como eu estava com minha câmera a tira-colo e as ondas não estavam boas o suficientes para me deixar chateado de não estar na água, passei parte do tarde caminhando e conhecendo a região. 

Apenas conhecia o lugar por vídeos de tubos absurdos no Youtube, porém o cenário que encontrei foi de um swel  pequeno demais para poder ver todo o potencial do pico. Outra informação que li num guia de viagem é de que a praia é muito poluída, especialmente quando a ondulação vem do Quadrante Sul. A região era tradicionalmente habitada pela elite de Lisboa até fins dos anos setenta, e após um boom na construção civil com o fim da ditadura e com a abertura econômica uma quantidade descomunal de esgotos começou a ser despejada no oceano sem qualquer tratamento - fato este que perdura até hoje, apesar da ação de associações de surfistas de proteção ao meio ambiente. 

Como era um quinta-feira, havia pouca gente e o clima era bastante ameno, com sol e pouco vento. No canto leste há um Forte do Exército, o qual não pude visitar pois é uma área restrita. Apesar de estar curtindo muito a praia, ainda precisava achar a prancha e o long, por essa razão comecei a perguntar por direções para surfistas e pessoas na praia, até que finalmente uma surfshop que era, literalmente, uma surfshop. Ou seja, nada de lindas pranchas de bodyboard para mim. A loja possuía alguns 'fatos' da Rip Curl, com zipper frontal e tudo mais, provei um dos longs mas acabei não gostando do modelo, muito menos do preço. 

Voltei para a praia e fiquei mais um tempo contemplando o lugar, sentado junto do Forte e pensando no dia seguinte, em que (provavelmente) já teria tudo em mãos e poderia passar o dia surfando no pico. Como no lugar não havia muito mais o que fazer, voltei para Lisboa para tentar achar minhas coisas até o fim do dia. 

Logo que voltei para Lisboa, entrei no metrô em direção à loja que não havia achado no dia anterior, pois descobri no Google Maps que na verdade ela se localizava junto ao metrô Campo Grande, ou seja, uma estação mais a frente de Alvalade, a estação que desembarquei no dia anterior. O mais engraçado da gafe na revista é que o erro foi cometido pelo próprio dono, que se confundiu ao descrever as direções da loja. Enfim, logo que achei o lugar, fiquei por quase duas horas escolhendo os equipamentos que mais se adequavam aos que iria encontrar em Portugal. Com um atendimento de alta qualidade, consegui achar o que eu precisava por um preço baixo, pelo menos a metade do que pagaria no Brasil. 

Para os poucos amigos que talvez se interessem pelas compras  em terras lusitanas, aqui vai uma breve descrição: 
Roupa de Borracha: Bodyglove modelo Fusion; 4:3; ziper frontal.
Prancha: Science modelo Mike Stewart; bloco 3D; 41,5.


Depois de um dia cansativo a vera, voltei para o hostel, tomei um banho e fui jantar qualquer coisa na rua. Como não podia comer outra coisa em Portugal além de peixe, pedi um bacalhau com batata e tomei uma cerveja bem gelada. Na sequência, caminhei até o hostel para - mesmo sem surfar - dormir de cabeça feita. 



Lisboa

Dia 1 - Finalmente cheguei em Lisboa para dar os primeiros passos de mais uma surftrip: o destino são as ondas cinco estrelas da costa lusitana. Apesar de não por perto amigos que gostaria de estar na companhia para desfrutar desses momentos memoráveis, trilho esse caminho de cabeça erguida e confiante - há tempos que Portugal é um destino sonhado e que nem achava que iria conquistar esse chão tão cedo.

Peguei o avião para cá vindo de Salzburgo. Passei dez dias na Austria, estes divididos entre Viena e Salzburgo, ambos lugares passados com meus primos do lado materno. Foram dias para organizar a viagem para Portugal, botar a cabeça em ordem e, também, finalizar a viagem pelo leste europeu que fiz com minha namorada no mês precedente.

Chegando no aeroporto de Lisboa, após a escala em Palma de Mallorca, tudo fluiu com muita tranquilidade. Logo que desembarquei fui direto para uma banca de revistas comprar uma edição da Vert, famosa publicação de bodyboard português. Para perguntar por direções, por uma vez estava em um país onde falo a mesma língua que os locais e foi facílimo achar uma condução para o centro e, em sequência, achar o albergue. Dessa vez, dei o 'pé-quente' de ter reservado um lugar confortável, limpo e barato.

Consegui fazer o check-in ainda pelas quatro da tarde, por isso decidi dar uma volta pelo centro histórico ainda com um pouco de luz do dia e tive uma sensação engraçada: após alguns momentos de caminhada parecia fazer sentido de pensar que uma boa parte da miscelânea que é o Brasil é oriunda dessa terra. Em alguns momentos Lisboa chega a lembrar o Rio de Janeiro. Tenho dúvidas se essa impressão minha se dá pelo fato de ambas cidades terem as clássicas calçadas de pedras em preto e branco ou pela semelhança dos centros históricos, ou ainda por um fator que não consigo lembrar ou identificar... Enfim, a cidade é fantástica, mas não aguento mais a sede de surf: de turismo mesmo aqui na capital portuguesa irei somente no Oceanário, que parece ser fantástico - o foco vai ser total no bodyboard.

O primeiro desafio era achar os equipamentos que me faltavam: uma roupa de borracha 4:3 (mais conhecido em Portugal como 'fato') e uma prancha de bodyboard (esta popularmente chamada de 'tábua'). Folhando a revista recém comprada, tive o prazer de encontrar uma grande lista das lojas com maior e melhor qualidade de equipamento em toda Portugal e, após uma olhada geral, peguei o endereço da única surf shop de Lisboa listada e me mandei. Nem mesmo peguei o endereço exato, acabei esquecendo, mas sabia que na descrição dizia "junto a estação de metrô de Alvalade" e por isso não me preocupei.

Desembarcando na dita estação, procurei pela loja e nada. Andei em várias direções sem sucesso e depois de meia hora acabei por desistir, estava morrendo de fome e fui jantar um saboroso peixe num restaurante qualquer: para o meu refestelo o peixe-espada com batatas estava fresco, saboros e foi muito barato. Voltei para o albergue e pesquisei por outras lojas, sem muito aparente sucesso em obter informações sobre surf shops na região.



terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Desabafo

Depois de uma bela noite de trago, eclode a avalanche de pensamentos. Após encher a cara em grande estilo, as idéias brotam aos borbotões; antigas experiências vêem a tona; discussões outrora cruas em minha cabeça viram munição para a reflexão; breves e antigos pensamentos evoluem para insights profundos e argumentos sólidos.

Talvez a mais longínqua recordação que tive hoje remonta a um ou dois anos atrás. No caminho para uma session de snowboard com um dos meus primo austríacos, o Rudiger, trocamos algumas idéias sobre a política nos diversos países do mundo. A pauta foi sobre como a única coisa que une todas nações do mundo é a completa podridão do corpo político global. Nós brasileiros as vezes pensamos que temos a única democracia podre do mundo, que corrupção pior que a nossa, só na Africa. A frase que marcou a conversa foi a qual ele, europeu, definiu a situação da política global atual: "hoje em dia, todas as ações mais nefastas e degradantes que podemos imaginar que nossos políticos cometem, eles estão de fato fazendo". Não adianta se iludir, o mundo anda mal - com o crescimento dos meios de comunicação, vemos claramente se desvelar a triste cortina que cobre o mundo da sua barbárie.

Parece que quanto mais se tenta aperfeiçoar uma idéia de ética humanista global, maior é o retrocesso. Em nome da justiça, da soberania e da nação, genocídios continuam a ser perpetrados em todos cantos do mundo. Enquanto leio o Relatório Sábato, principal compêndio sobre o 'saldo' de mortes e torturas cometidas no período da ditadura militar argentina, reflito sobre quanto tempo terei de esperar por ler um trabalho parecido sobre a Venezuela de Chavez. Quanto tempo terei que ver o esquerdismo da América Latina aplaudir um facínora, para depois ter de ler sobre a opressão, a tortura, os assassinatos e as perseguições políticas?

A impressão que fica é que os poucos bons políticos que o Brasil tinha ou morreram, ou não foram reeleitos. Enquanto, pelo outro lado, a cada nova eleição vemos a ascensão de candidatos ridículos que me recuso até mesmo de citar o nome. "Pior do que está não fica", não é mesmo? Ledo engano, meu amigo. O Brasil ainda tem um poço de podridão moral bem grande para descer. Se com o crescimento econômico magnífico brasileiro nós conseguimos aumentar a passos largos nosso apartheid social, imagine quando bater na nossa porta a próxima crise!

Sinto uma pena, para não dizer um embaraço, de minha geração estar tão longe da política brasileira - esta tão repugnante e suja, que espanta os jovens de seu seio. Como falei acima sobre a política mundial, a Europa pode não ser o paraíso da ética política, mas aqui a juventude é engajada, faz barulho, integra o corpo democrático de seus países com força e convicção. No Brasil só consigo ver na juventude uma militância cega e ultrapassada ou jovens burros, arrogantes e perdidos no próprio ego. Sei que reclamar é fácil - muito fácil -, eu mesmo me repreendo por não me engajar mais na luta por justiça e por um país melhor.
Todavia, penso que ajudar a construir uma consciência coletiva do nosso déficit de seriedade para moldar um bem comum para a nação já é um passo, uma fagulha de esperança para tempos melhores.

Strauss

Tristes trópicos (Claude Lévi-Strauss) até hoje mantêm uma vertiginosa lucidez no que tange a situação brasileira - e da América latina, de um modo geral - no tempo e no espaço, na sua cultura e nos seus eternos problemas. Incríveis são histórias que o mestre conta sobre suas viagens Brasil adentro, expedições estas feitas no lombo de boi, por infinitos meses nas terras (quase) desconhecidas da parte norte do Mato Grosso em direção à Rondônia.

Em busca de sair do ambiente pesado da burguesia intelectual parisiense, o autor começa cada vez mais a se distanciar - e dissociar - de sua 'civilização natal'. Ao mesmo tempo que solidifica essa convicção de espiritualmente não se sentir parte da burguesia francesa, o conhecimento cada vez mais apurado sobre o homem indígena não lhe desvela um reencontro com a paz de espírito: após andanças no centro-oeste do país, revela que encontrou o homem no seu estado mais simples, mas ainda com todos as características de um homem político, com cultura, com suas intrigas, guerras, hierarquias e normas...

A premissa da obra é sobre o impacto avassalador do Ocidente para com sociedades em fases de crescimento e maturação distintas; choque esse muitas vezes fatal contra as populações locais que, quando não eram exterminadas, se viam dizimadas por doenças 'brancas': cólera, sífilis, tuberculose...

Sob forma de impressões e reflexões sobre os mais diversos temas, o livro passa pelos olhos do leitor como um mosaico da vida de Lévi-Strauss - uma experiência brasileira que o marcou e definiu suas convicções para toda a vida. Enriquecedoras, para dizer o mínimo, são as considerações e impressões de um antropólogo, judeu francês, sobre São Paulo, Rio de Janeiro, Santos, Bahia, Goiaz (sim, com um "z") e outras regiões do país em períodos remotos. Aliando precisas impressões sobre as metrópoles em construção, somos introduzidos à grandes contrastes quando descreve suas expedições para as duras terras do sertão do centro do país, em busca de tribos pouco estudadas: Bororos, Caduveo, Mbaya, Nambkywara.

Suas descrições de um Brasil que começa a se industrializar são de uma precisão e clareza enorme. Conta, por exemplo, a história do nascimento das estradas de ferro no Estado de São Paulo, financiadas por uma empresa britânica. Descreve o nascimento dos vilarejos nas bordas das vias férreas; na estação Arapongas, a quatro estações de São Paulo capital, distante cerca de 60 quilômetros, o vilarejo era composto por somente uma casa habitada por um francês ermitão: região esta que se transformaria numa das mais populosas da América Latina. Cerca de duas décadas depois, o vilarejo que representava apenas uma estação da recém construída estrada de ferro, já abrigava mais de dez mil pessoas.
Um dos relatos que me marcou, e com certeza um dos mais caricatos, foi bem no início das andanças de Strauss no Brasil, antes mesmo de ser convidado para lecionar na USP.

Nos anos 40, ao andar pelas ruas de Salvador fotografando o centro histórico, foi abordado por crianças negras que corriam ao seu lado. Pediam para o francês: "tira o retrato! tira o retrato!". É claro que Strauss tirou as fotos para agradar as humildes crianças, apesar de saber que estas crianças jamais veriam tais fotos. Logo depois, após caminhar cerca de cem metros, foi interpelado por dois inspetores da polícia civil, que lhe informaram que acabara de cometer um "ato hostil ao Brasil"; não tinha autorização para tirar tais fotos - de crianças negras da Bahia, com pés descalços, em pleno centro da cidade - pois poderia manchar a imagem do país na Europa - o grande acontecimento do momento era o auge da Segunda Guerra Mundial.

Fiquei muitos dias pensando nessa cena pitoresca (a começar por imaginar o 'naipe' de inspetores da polícia civil Baiana no começo dos anos 40). Strauss acabou detido - todavia, somente pernoitou na delegacia de polícia, sendo liberado no segundo dia: a embarcação que lhe levaria de volta para a Europa partiria na tarde do dia seguinte, então recebeu uma "colher de chá" da querida corporação policial, que lhe deixou partir - sem o material fotográfico.

A partir desse mosaico de reflexões sobre o país, o maior ensinamento absorvido foi o de estudar e aprender o que é, e o que se tornará, essa enorme nação. Refletindo muito sobre essa influência do Velho contra o Novo, o contexto da obra me levou a refletir sobre outros aspectos do Brasil atual; sobre como é possível para nós, um povo tão novo, desenvolver outras respostas para as problemáticas que muitos países desenvolvidos não conseguiram responder de forma satisfatória - ou como podemos continuar a errar para sempre na construção da democracia.

Se hoje em dia inúmeras partes do país ainda são inóspitas mesmo para nós, brasileiros dos anos 2000, ler esse livro é como entrar em um filme de aventura; a única diferença é que a proximidade com o conteúdo é única e, pelo menos para mim, é impossível deixar de se envolver com as viagens Brasil afora. Em minha mente viajo na vastidão imensa desse território, no infinito particular que esse país representa. É tão comum pensar em mochilar pela Europa e, realmente, quantos de nós realmente conhecem o Brasil?

Viver na Europa, no tão famoso e badalado Velho Mundo, me dá inspiração para entrar de cabeça nesse país maravilhoso. Ao contrário de muita gente que volta para Brasil falando que a Europa é o lugar onde tudo funciona e que o 'primeiro mundo' é a coisa mais linda, a cada dia que passa redescubro minha terra natal. Sou consciente de todos os benefícios de viver num país com uma vida cultural, de fato, viva; com suas invejáveis livrarias, com sua segurança, com seus museus incríveis: enfim, tudo aquilo que estamos cansados de ver absolutamente ausente no Brasil.

Apesar disso, não consigo deixar de sentir uma enorme atração pelas paisagens quase intocadas do Brasil, pelas lindas praias, pelo esplendor de nosso mar, pela simplicidade do nosso modo de ver o mundo: pelo 'belo caos' do dia-a-dia brasileiro, pela tranqüilidade de se viver em terras brasilis. Reconheço que o Brasilzão possui todos seus problemas, todavia cabe a nós mesmos darmos o exemplo de que país queremos viver e, ao mesmo tempo, cultuar e desfrutar do nosso próprio solo.

Viva o Brasil!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Joaquina

Rodávamos, eu e um amigo, pelas estreitas avenidas da Ilha - íamos para a Lagoa em direção aos barzinhos. Era sábado a noite, clima agradável. Não era verão mas ainda se sentia um clima de festa. Gente na rua, bares lotados. Se bem me lembro era o começo do ano letivo, na estação em que a Fluir apelidou de 'Outono Atômico' naquele ano. Altas ondas quebravam por todo Brasil, ondulações maciças de quadrante sul e sudeste davam as caras frequentemente nesses três meses - inclusive novas lajes poderosas eram descobertas no Rio de Janeiro e no sul de Santa Catarina.

Como o povo da terra de Floriano Peixoto é totalmente consciente que vive em um dos lugares mais belos do mundo e com um lazer de altíssimo nível, culturalmente a noitada começa cedo e acaba cedo. Tínhamos surfado o dia todo, o corpo estava esgotado; no final das contas, só fomos mesmo dar as caras no bairro boêmio. O clima era de dar um rolê, uma banda por aqui e ali, e vazar. Estava passando apenas o final de semana na antiga Desterro e, afinal, domingo também é dia de surf. Como já estávamos pela região da Lagoa da Conceição, decidimos rumar para a Praia da Joaquina e curtir um pouco a beira da praia.

Meu amigo dirigia o Fiesta vermelho enquanto eu tentava relaxar um pouco os músculos no acento do carona. Era um carro usado, em bom estado, com altura boa para o padrão da terrível da pavimentação florinapolitana. Assim que passamos a Avenida Rendeiras, na beira da lagoa, começamos a dobrar em direção à pequena estrada que leva para a Joaquina, entretanto já não falavamos descontraidamente - estávamos os dois calados, quase que parando de conversar. Ambos sentiam o clima pesado. Parecia que a noite, muito escura, sufocava. Tentamos relaxar o clima, sem muito sucesso; apenas trocávamos algumas frases sobre o surf do dia.

Um pouco antes de chegar no estacionamento, a uns 200 metros da praia, meu amigo sentiu algo de estranho no carro. Já dirigia a mais tempo que ele, tentei analisar as rotações, o barulho do motor, os ruídos, enfim, não notei nada de diferente. Todavia, ele que estava dirigindo e ele havia sentido algo diferente, logo na subida da lomba em direção a praia. Não demos bola, se o carro estava rodando e nos levando aonde queríamos, beleza.
Somente no dia seguinte que descobrimos que um cabo da bateria tinha parado de funcionar, não me lembro exatamente o que estava estragado, e o carro não dava mais partida. Após meia-hora de mecânica conseguimos faze-lo funcionar para nos levar pro Campeche.

Estacionamos, saímos do carro e nos sentamos num banco, contemplando as ondas noturnas quebrando na Pedra do Careca - iluminadas por um intenso refletor. Perto das ondas, parecia que estávamos rodeados por uma energia intensa. Um tipo de bruma pairava no ar, como uma neblina invisível - densa e pegajosa. Logo chegaram dois caras para fumar um na beira do mar; motoqueiros, com os capacetes na mão. Se passaram alguns minutos e, num clima um pouco mais ameno, avistamos um vira-lata na areia. O cusco fuçava um pouco na areia, tranquilo no seu habitat natural.

Comentei com meu parceiro da conversa que tive com outros dois amigos. Era um fim de trip numa outra praia, bem distante dali. Comíamos um xis antes de partir de volta pra casa. A conversa foi pautada pela reflexão acerca de espiritismo, energias, aparições, vida sobrenatural e superstições. Um dos itens que me marcou foi um papo sobre forças que habitam determinadas formas. Guardei na minha cabeça a frase de um desses amigos: o cachorro é guardião, quando se vê um cão num lugar repleto de energia e tensão como uma praia, pode ter certeza que ele não está ali por acaso - está investido como detentor do reino.

Após esse comentário, vimos chegar uma senhora mulata de seus, talvez, 40 anos. Bem vestida, como se tivesse saído de uma festa a pouco tempo. Com as sandálias na mão e um largo sorriso no rosto, olhei rapidamente e não dei bola, só achei um pouco estranho. Assim que ela passou por nós, em direção à areia, notamos que alguma coisa estava errada. Os dois outros rapazes também olharam com mais atenção, chegando a rir e a fazer algumas piadinhas. Começamos a vê-la perder o controle sobre si mesma, como se estivesse possuída. Fazia um tipo de requebrado no caminhar, mostrava claramente a falta de fluidez nos movimentos típica de alguém que está em transe. Ela havia 'baixado o santo'. Esse processo demorou seus 15 ou 20 minutos, de forma que a senhora caminhava da areia até o mar revolto, ficando com água até as coxas - e em nenhum momento fez menção de parar com a introspecção profunda, e sequer havia olhado para trás. Era como se não tomasse conhecimento do seu entorno, apenas acatava ordens das suas vibrações internas. Além dos quatro homens sentados nos bancos, o vira-lata também observava com atenção.

Para nós dois, a tensão havia transbordado, não estávamos nos sentindo a vontade. Logo decidimos ir embora. A sensação era de um leve transtorno. Era como se tivéssemos acabado de receber uma mensagem. Mesmo não tendo falado muito durante essa experiência, ou mesmo depois, tenho certeza que saímos de lá com a mesma lição. Aprendemos de um modo sublime e sutil algo que qualquer um que tenha uma ligação intrínseca com o mar deve saber e, sobretudo, cultuar: respeite o mar.

domingo, 14 de novembro de 2010

Barcelona

Barcelona. Depois de ver a Sagrada Família, ter perambulado pelo - no mínimo - peculiar centro histórico da cidade e, principalmente, de ter curtido uma bela caminhada até o Estádio Olímpico, sinto uma elevação de consciência para com o meu entorno - um tipo de oxigenação da alma que só sinto depois de uma viagem em que parto para casa de cabeça feita.
Já tinha ido pra Barcelona quando eu tinha uns 13 anos, e a volta à essa maravilhosa cidade foi recheada de flashbacks. Coisas que eu vi quando era muito mais novo com a minha família tive a oportunidade de reencontrar, por acaso, logo antes de ir embora. Inclusive tenho posto a prova a minha real vontade de continuar trilhando o Direito, mas acho que esse tipo de dúvida é das mais normais quando se faz uma viagem fora de sério pela Europa ou aonde for. O que importa é curtir, ler e escrever. A viagem foi absurdamente reflexiva, me diverti pra caralho - meus três amigos que me acompanharam são realmente bons companheiros de viagem, tudo foi muito layback, easy going.

Essa perspectiva de viajar aos 13 com a família e aos 20 com amigos estrangeiros foi legal. É impressionante como tanta coisa muda em tão pouco tempo. Sim, eu sei que isso é um clichê - e pouco me importa, tenho utilizado de tão bons e velhos clichês a minha volta que até comecei a gostar deles. É bom dizer do fundo do coração: 'estou amando como nunca amei'. Por mais batido que seja, se eu sinto isso, eu bato no peito. Foda-se.

Cinco dias antes de zarpar louco para a Espanha, tinha feito Bruxelas, Bruges e Amsterdã e - entre atrações como Van Gogh, Dalí, Gauguin e Maeneken Piss -, consegui, além de tomar cerveja trapista como um bezerro, fazer um tour cultural bastante razoável. Quem diria que uma cidadezinha de merda como Bruges (localizada mais precisamente no norte de Flandres, Bélgica - que inclusive possui surfshops com wetsuits grossíssimas para se fazer um surf no Mar do Norte) possuí uma coleção permanente de Salvador Dalí, com muitas obras exclusivas, inclusive esculturas? Aliar uma boa diversão com algo que me faça refletir me deixou com uma sensação de dever cumprido, uma simbiose de curtição com reflexão. Daquele jeito. E não posso esquecer de jeito nenhum as três cervejarias que visitamos, uma em cada cidade! Na ordem de satisfação de admiração, aqui vai: Cantillon (última cervejaria da verdadeira Lambic Beer, de Bruxelas, maturada por até três anos), Brugse Zot (última cervejaria do centro medieval de Bruges, altamente premiada) e, como não poderia faltar, mas muito inferior às artesanais, mas ainda com seus méritos, a fábrica da Heineken, em plena Amsterdã.

Por mais que eu queira continuar com as reflexões pós viagem, vou retomar a Saga Europa amanhã, as 'fáceis' conjugações de verbos em francês me chamam. Tchau!

Luis Rosenfield

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Escrever

Fiz o blog antes de vir para a França, tendo feito um post somente, e acabei por esquecer do desafio de escrever diariamente - ou pelo menos de criar uma espécie de rotina de escritura, hábito que tanto prezo.
Estou lendo um livro de um jornalista francês, Cyril Payen, chamado Laos, la guerre oubliée (Laos, a guerra esquecida). A fascinante expedição que esse cara empreendeu para cobrir uma matéria sobre um genocídio étnico que perdura até hoje - sob a égide do abandono total da comunidade internacional - me atingiu em um nervo e decidi que deveria voltar a escrever, de uma vez por todas.
Acabei por lembrar das sábias palavras do mestre Ray Bradbury, que escrevia sem parar em sua garagem - compondo uma vasta obra de ficção científica -, somente sendo perturbado por suas filhas pequenas que vinham o incomodar para que brincasse um pouco com elas. Talvez ainda mais influente seja Gabriel García Marques, que afirmou que só conseguiu escrever Cien años de soledad obrigando a si próprio a escrever pelo menos uma página diariamente.